A CRIANÇA NO MUNDO DE HOJE

16 de maio de 1969

 

Um velho chavão, mas verdadeiro, afirma que a criança é o futuro de um país, porque ela é a garantia da continuidade de uma cultura. O ser ainda em formação constitui, socialmente, uma tabula rasa, onde são gravados, profunda e indelevelmente, os pre­ceitos, os preconceitos e o modus vivendi de uma sociedade.

Nos primeiros anos da vida do infante, a mãe representa o mais eficaz agente cultural, dada à sua proximidade física e espiritual da criança. De conformidade com os tem- pos e os lugares, essa espécie de cordão umbilical psiquíco pode ter uma vida longa ou muito breve.

Desde as mais remotas civilizações, existiu nítida separação nos processos educacionais da criança, não apenas em relação à hierarquia social, como também ao sexo. Em Esparta, os meninos eram educados para serem bons guerreiros e as meninas para incentivarem, quando adultas, as virtudes bélicas em seus maridos e transmitirem-nas aos filhos. As crianças, nascidas defeituosas, eram projetadas do alto de um rochedo, com a finalidade de eximir o Estado do ônus de um indivíduo imprestável. Entre os romanos, o nascimento de uma menina não satisfazia à finalidade do casamento, porque somente ao filho cabia a perpetuação do culto doméstico. Tanto na Índia, como na Grécia e em Roma, a filha não podia herdar. Posteriormente, o Direito Romano lhe fez algumas concessões.

Se na nossa civilização ocidental sempre existiu a superioridade social do elemento masculino, determinando, por conseguinte, processos pedagógicos distintos, o mesmo não aconteceu - e ainda não acontece - entre certos povos primitivos. A região mais meridional da Melanésia norte ocidental é habitada pelos povos dobuanos. Nesta primitiva organização social, o marido desempenha um pa- pel subalterno e até mesmo humilhante.

Os estudos e as observações antropológicas têm derrubado muitos mitos e superstições a respeito de uma natureza humana de validade universal. Muitas consi­derações de conteúdo ético e determinados juízos de valor têm ruído, fragorosamente, no cotejo entre as mais diferentes culturas, principalmente aqueles que dizem respeito ao sexo. Malinowski já observara que, entre os ilhéus de Trobiand, do Pacífico Sudoeste, a manifestação do complexo do Édipo divergia da do contexto ocidental: o menino apresentava desejos incestuosos para com a irmã, em vez da genitora, e hostilidade para com o tio da genitora, em vez do genitor.

Na América do Norte, os índios Hopi não dão importância à relação sexual entre crianças, porque não resulta em gravidez. Não se faz distinção entre as crianças e os adultos, sendo todos os homens con­siderados pai e todas as mulheres, mãe, disto resultando um sentimento de segurança e solidariedade, duran­te o período infantil. No seu superliberalismo, os Hopi costumam afirmar que “os brancos esperam demais de uma criança”.

Os índios Pilagá, da América do Sul, não exigem de seus filhos amor absoluto, respeito ou honrarias, tratando-os como seus iguais. As crianças, por sua vez, são muito preocupadas com atividades e folguedos de natureza sexual. Aliás, cumpre ressaltar que entre a maior parte das culturas melanésias da Nova Guiné sul oriental, os adultos não se importam com a relação sexual entre crianças. Geralmente, os nativos abominam os castigos corporais, e al- guns deles costumam afirmar que os brancos não amam os seus filhos, porque os castigam.

A cultura, por conseguinte, modela as crianças segundo o seu próprio contexto e, nessa modelagem, muitas vezes, deforma, de maneira irreversível, a sua individua­lidade. Atrofia ou distorce a sua originalidade criadora. Reprime manifestações legítimas de sua estrutura orgânica. Exacerba a agressividade ou induz ao comodismo. Elabora tabelas de valores além do alcance da maioria dos indivíduos, gerando frustrações e descontentamentos. Estabelece distinções entre os homens, de conformidade com a idade, o sexo, a cor, a posição social e a situação econômica. E a criança, conforme os bons ou maus fados do seu nascimento, é encaminhada, pedagogicamente, para assimilar o modelo que lhe é assinalado na sociedade.