O CELIBATO

6 de junho de 1969

 

 

Quando Deus, segundo o Gênesis, criou o primeiro casal, recomendou-lhe: “Crescei e multiplicai-vos e enchei toda a Terra”. Apesar deste preceito divino, nem todo indivíduo se sente atraído para estabelecer uma sociedade conjugal. Os hebreus, porém, embalados na expectativa de um Messias liberta­dor, jamais admitiram o celibato.

Os Persas instituíram prêmios e vantagens para os que dessem mais filhos ao Estado. O Zend-Avesta, seu livro sagrado, re­comendava o casamento precoce.

Em Esparta, o celibatário era castigado com a infâmia, assim como aquele que se casava tardiamente. Também era considerado motivo de desonra o casamento entre velhos, ou entre jovens e velhos. Segundo Plutarco, os celibatários eram excluídos dos jogos ginásicos e, como castigo, obrigados a andar desnudos, no rigor do inverno, em plena via pública, entoando canções ridículas. Por outro lado, o governo espartano concedia prêmios aos casados, que tivessem certo núme­ro de filhos. Conforme Aristóteles, quatro filhos eram suficientes para isentar o genitor de todos os ônus públicos.

Em Atenas, Sólon não estabeleceu pena para os celibatários. Dinarco informou que nem os oradores, nem os comandantes de Exércitos podiam ser admitidos no governo do Estado antes de terem filhos.

Em Roma, o celibato foi combatido desde os primeiros tempos, com a instituição de prêmios e privilégios para os casados. Os censores aplicavam a pena de multa aos celibatários recalcitrantes.

Os germanos viam, no matrimônio, o primeiro de-ver do cidadão.

O Cristianismo, conquanto elevasse o matrimônio a sacramento, ensinou que o estado virginal era superior àquele.

Nas grandes cidades modernas, principalmente em virtude do fator econômico, tem aumentado o número dos celibatários, levando o governo a cogitar de medidas legais para a sua repressão, tais como gravar com imposto especial a todos os solteiros maiores de certa idade,

O celibato eclesiástico não exige a virgindade, mas a con­tinência. Na Igreja ocidental, o celibato é obrigatório pa­ra todos os que se ordenam, enquanto que, na Igreja oriental, tal obrigatoriedade só é imposta aos bispos e demais clérigos de ordens superiores, que não sejam casados ao tempo da ordenação.

A instituição do celibato eclesiástico não é de direito divino natural, nem de direito positivo. Pretenderam alguns teólogos que ele fosse de direito positivo, sob fundamento de que, no Antigo Testamento, se permitia o casamento aos sacerdotes. Estes apenas se abstinham de suas mulheres nos dias em que ofereciam o sacrifício, a fim de se acercarem do altar com maior pureza de coração. Eles argumentavam que, como no Novo Testamento foi instituído o Santo Sacrifício da Missa e este se deve oferecer, com freqüência, todos os dias, a ado­ção do celibato constituiu uma medida imperiosa. Esses motivos, porém, são aparentes, pois não há texto algum nas Sagradas Escrituras, que imponha o celibato eclesiástico. Se este fosse de direito divino, a Igreja não poderia dis­pensá-lo, como o fez a Igreja oriental. O celibato, portanto, é de direito eclesiástico humano.

Nos primeiros séculos da Igreja, era costume a guarda estrita do celibato pelos clérigos de ordens superiores, não só no Ocidente, como também no Oriente, costume este derivado dos tempos apostólicos, tendo, até certo ponto, força de lei. A partir do século IV, adquiriu caráter de obrigação legal.

Guizot, no seu livro “História da Civilização Européia”, mostra como o celibato eclesiástico impediu que o clero se tornasse uma casta. Há os que argumentam que o celibato asse­gura a independência do clero e sua liberdade para resistir à tirania e às perseguições.

            No Budismo, existe a ordem dos religiosos mendicantes, que impõe aos seus membros a obrigação de viver em celibato. No Tibete, esse costume é observado pela seita religiosa do “Chapéu amarelo”.

O Concilio Iliberitano, em 305, mandou que todos os eclesiásticos, indistintamente, se abstivessem de relações conjugais desde o momento de sua ordenação. Os demais Concílios repetiram essa orientação, nem sempre seguida por al­guns clérigos, que continuaram casados, ou vivendo em concubinato. O Papa Gregório VII, em virtude desse abuso, restabeleceu a disciplina antiga, por ocasião do Concilio de Roma, em 1074, fulminando, com a pena de excomunhão, os clé­rigos casados, ou em concubinato, como também os fiéis que se confessassem com eles ou assistissem às suas missas. Final­mente, o Concilio de Trento, no século XVI, estabeleceu, definitivamente, o celibato eclesiástico para todos clérigos da Igreja ocidental.