A AGRESSIVIDADE

27 de junho de 1969

 

 

Desde tempos imemoriais, quando árdua era a lu­ta pela sobrevivência, o homem desenvolveu, ao máximo, a sua capacidade agressiva e a sua habilidade de destruir seus inimigos, fossem eles animais ou seres humano. A força constituía, assim, ao mesmo tempo, a linguagem, o poder e o direito entre os nossos antepassados.

Mas, a agressividade não era apenas um fato comum entre os homens. Os deuses antigos também possuíam entre si as suas diferenças, nem sempre resolvidas pelas vias diplomáticas. Basta dizer-se que a ira - este sentimento tão prosaicamente humano - era uma respeitável divinda­de, filha do Éter e da Terra.

As mitologias e as lendas mediterrâneas e nórdicas estão repletas de acontecimentos violentos, onde os deuses pelejavam entre si e, não satisfeitos, ainda se imiscuíam nas controvérsias humanas. Os deuses olímpicos facilmente se irritavam com a irreverência dos homens, aplicando-lhes castigos com os poderes de que dispunham. Zeus, ou Júpiter, era um deus de mau humor e intolerante. O mesmo acontecia com Iavé, o deus dos hebreus, que, arrependido de ter feito o homem, conforme consta do Gênesis, afogou quase toda a humanidade em um dilúvio universal, do qual somente escaparam Noé e sua família.

Sansão, um famoso juiz dos israelitas, recuperando a sua prodigiosa força, agarrou-se às colunas do tem­plo, onde se achava prisioneiro, e conseguiu derrubá-lo, sepultando-se sob seus escombros, juntamente com cerca de 3.000 filisteus.

Héracles ou Hércules, graças à sua força descomunal, realizou proezas mirabolantes, e Aquiles, o guer­reiro invencível, só foi abatido por um golpe de sorte - uma seta desferida por Páris e que lhe penetrou o calcanhar - quando tripudiava sobre o ca­dáver do valoroso troiano Heitor. As Valquírias, filhas do poderoso deus nórdico Votã, recolhiam as almas dos heróis mortos em combate, levando-as a sua morada no Walhalla.

Povos do passado se destacaram pela sua agressividade e ânsia de dominação: os assírios e os romanos, na Antigüidade, e os hunos, os normandos, também chamados de Vikings, os mongóis e os árabes, durante a Idade Média.

A história assinalou os feitos de homens, que deixaram, à sua passagem, uma esteira de progresso e violência, ou de apenas violência: Nabucodonosor, Alexandre Magno, Jú­lio César, Átila, Carlos Magno, Gengis Khan, Napoleão Bonaparte e, em nossos dias, Adolfo Hitler.

Nos tempos da Cavalaria, na Idade Média, eram co­muns os combates entre cavaleiros, quer por ocasião de torneios, quer em um encontro fortuito na floresta. Na Corte do lendário rei Artur, pontificaram a coragem e os feitos heróicos dos aguerridos cavaleiros da Távola Redonda, como Lancelote, Tristão, Percival e Galahad.

Nos séculos XV e XVI, os duelos eram freqüentes, ense­jando, na França, a intervenção do Cardeal Richelieu para coibir os seus abusos. A honra e o poder quase sempre estiveram presentes em todas as manifestações da violência humana.

Até quase as derradeiras décadas do século XVIII, o mundo ocidental esteve sob o império do Direito da força e do Direito pela força, conquanto filosofias contemporizadoras, como a de Hobbes, no seu livro “Leviatã”, procurassem justificativa para esse fato. As confissões obtidas mediante torturas e as penas aplica­das – esquartejamento, roda, forca, fogo, decapitação, morte civil, confisco de bens, entre outras - revelavam o quanto de crueldade e violência também existiam no Poder Público.

Com o advento da Revolução Francesa, em 1789, descontados os abusos da época do Terror, a Europa ingressou em uma nova fase de progresso político e social, com a substituição do Direito da força pela força do Direito. O Poder Público proibiu a violência como recurso legal, ressalvada a sua faculdade coercitiva para garantia da ordem social.

Conquanto o Direito, a Moral e a Religião procurem, por todos os meios, reprimir e anular as manifestações de agressividade dos indivíduos, ela subsiste disfarçada sob as mais diversas formas. Se essas explosões sublimadas de agressividade, quase nunca conduzem o homem ao crime, todavia constituem uma constante na vida social, notadamente nas grandes cidades.