A RELIGIÃO E O HOMEM MODERNO

17 de janeiro de 1969

 

 

Quando, pela primeira vez, um lampejo da inteligência iluminou o cérebro do homem primitivo, ele sentiu-se esmagado pelo universo. Instantaneamente, um sentimento de reverência e de temor invadiu o seu espírito: nascia a religião.

Alguns historiadores e sociólogos consideram o totemismo como a mais antiga das religiões. A crença totêmica foi encontrada en­tre alguns índios da América do Norte - os Algonquins, por exemplo - e entre os primitivos da Austrália. O totemismo consiste na adoração de seres ou de coisas julgadas sagradas por todos os membros de um clã. Na maioria das vezes, os totens são animais como o papagaio, o canguru, o falcão, o búfalo e, raramente, as coisas, como a chuva e os astros. O totem é considerado o ancestral dos membros do clã. Outra idéia fundamental do totemismo é o mana, termo polinésio, que designa uma força impessoal, ao mesmo tempo física e espiritual, que se encontra impregnada em todas as coisas, notadamente nas que são consideradas sagradas. No totemismo existe, ainda, a idéia do tabu, ou seja, proibição, palavra polinésia, que designa a instituição em virtude da qual determinadas coisas e determinados atos são considerados proibidos, com a finalidade de se separar o sagrado do profano. Émile Durkheim procurou demonstrar que essa reli­gião exerceu profunda e extensa influência sobre a vida intelectual, moral, social e religiosa da humanidade. Ainda segundo Durkheim, é da crença totêmica “que veio a doutrina, tão difundida, da metempsicose”.

O animismo, a princípio também chamado de fetichismo, é a religião “que coloca em toda a natureza, espíritos mais ou menos análogos ao espírito do homem.” En­contram-se, no animismo, algumas das idéias fundamentais do totemismo, como o mana, o tabu e os ancestrais míticos. Também do animismo, conforme o entendimento de Salomon Reinach, derivou a magia, que comporta dois aspectos fundamentais: a magia imitativa e a magia simpática, sendo que, nessa ultima, se assentam os princípios da bruxaria.

A religião egípcia contém numerosas sobrevivências do totemismo e do animismo. Certos animais sagrados tornaram-se deuses e estes, por sua vez, são representados com cabeças de animais: Hórus tem cabe­ça de falcão, Anúbis, cabeça de chacal, Toth, cabeça de íbis. Além da prática da magia, a religião egípcia instituiu o culto dos mortos. No século XIV a.C., no período da XVIII dinastia, Amenhotep IV ou Amenófis IV, quis estabelecer, no Egito, o monoteísmo, com a adoração do deus Aton, que personifi-cava o Sol.

A religião de povos como os sumérios, os assírios, os babilônios, os hititas, os frígios, os germanos, os celtas e os fenícios está impregnada de idéias animistas e politeístas.

Os gregos e os romanos, além de suas características anímicas, politeístas e totêmicas, também se fundamentaram no culto dos mortos, à semelhança da religião egípcia.

Inegavelmente, pertence à Índia a primazia do pensamento metafísico. As suas diversas religiões - o vedismo, o bramanismo, o hinduísmo, o jainismo e o budismo - apresentam sobrevivências totêmicas e animistas, com tendências ora politeístas, ora monoteístas e até um indisfarçável ateísmo. O livro sagra­do do Vedismo é o Veda, cuja parte mais antiga, o Rig-Veda, data, possivelmente, de 1500 a.C. O tema essencial do Veda é a salvação pelo sacrifício. O bramanismo, cujos livros sagrados são os Bramanas e os Upanichades, apareceu no século IX da nossa era. O bramanismo proclama a salvação, não pelo sacrifício, mas pelo conhecimento. O hinduismo surgiu quando o bramanismo entrava em decadência nos primeiros séculos da Era Cristã. Adotou, como livros sagrados, os Vedas, os Bramanas, os Upanichades, os Puranas e o Mahabarata, cuja parte mais bela é o Bhagavad Gita e o Ramaiana. A idéia fundamental do hinduísmo é o Bhakti, ou seja, devoção: a salvação está no amor e não no sacrifício ou no conhecimento. O jainismo, conforme alguns estudiosos, é uma religião atéia: não há Criador, nem houve criação, o mundo é eterno. O budismo, que apareceu com o jainismo no século VI a.C., teve, como fundador Gautama Sidarta, o Buda, ou seja, o iluminado.  O budismo afirma que nada há de permanente, nem no mundo material, nem no mundo espiritual: existem apenas estados subjetivos. A sua lei fundamental é a lei do Karma, ou seja, a lei das causas e dos efeitos. A finalidade do homem é a sua integração no Nirvana. O budismo se difundiu no Ceilão, Birmânia, Sião, Camboja, Turquestão, China, Coréia e Japão. Todas as religiões da Índia têm, por fundamento essencial, a idéia da reencarnação.

A China conheceu, além de suas religiões primitivas, impregnadas de forte animismo, o confucionismo, o taoísmo e o budismo chinês. O confucionismo, fundado por Confúcio, exclui toda a metafísica e se baseia apenas em princípios éticos. Por isso, Confúcio foi denominado de o “Sócrates chinês”. O taoísmo é atribuído a Lao-Tseu, que teria vivido no século VI a.C. O Tao é a ordem do mundo. É o princípio eterno do qual procedem todos os fenômenos.

No Japão, além do xintoísmo, que é uma religião de natureza anímica, se desenvolveram o confucionismo e o budismo.

No Irã, antiga Pérsia, surgiu o masdeísmo ou zoroas-trismo, cujo fundador foi o profeta Zoroastro ou Zaratustra. O seu livro sagrado é o Avesta ou Zenda-Avesta. Zoroastro parece ter vivido no século VII a.C. Esta reli­gião prega que, em cada milênio, surgirá um salvador, nascido de uma virgem. Ensina que o universo é uma luta entre dois princípios: o bem e o mal. Essa religião exerceu uma grande influência sobre outras religiões. O parsismo, o mitraísmo e o maniqueísmo são religiões menos importantes do que o masdeísmo.

O judaísmo é a religião dos israelitas também chamados hebreus ou judeus. O seu livro sagrado é o Antigo Testamento, que, no princípio da Era Cristã, se dividia em a Lei, ou Thora, os profetas, e as Escrituras ou Hagiógrafos, isto é, escritos sagrados. Moisés é o seu grande expoente. O judaísmo repele a crença politeísta, firma-se na monoteísta e se insurge contra o magismo. O seu traço característico é a esperança em Deus e em melhores dias para o seu povo. O Talmude é outro livro sagrado dos israelitas e foi elaborado após a sua dispersão, ou diáspora, cerca do 70 a.C. A Cabala é uma corrente intelectual de origem judaica e apareceu no princípio do século XIII. A Cabala, cujo livro principal é o Zohar, ou o Livro do Esplendor, admite que Deus reside na natureza e no próprio homem.

A teosofia, fundada por Helena Blavastky, foi grandemente influenciada pela Cabala.

O Cristianismo teve em Jesus o seu inspirador. Conquanto sejam conhecidos mais de 60 evangelhos, apenas quatro foram considerados autênticos: os de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João. O Cristianismo originário,  mais tarde, se cindiu em Catolicismo e Protestantismo, e este último se subdividiu em outras religiões ditas cristãs. A própria Igreja Católica se separou da Igreja Oriental Ortodoxa, nos meados do século XI.

O Islamismo, a mais nova das religiões universais.  foi fundada pelo profeta Maomé, nascido 600 anos após o Cristianismo. Ele recebeu, por revelação, o livro sagrado do Islã, o “Alcorão”. A sua tese fundamental é o Deus único, onipotente e misericordioso, e o fatalismo de todas as coisas, resumido na frase: “Estava escrito”. O sufismo e o bahaísmo são religiões menores do Islamismo.