A JUVENTUDE NO MUNDO DE HOJE

11 de abril de 1969

 

 

A juventude é a fase biológica na qual se manifesta o poder renovador da vida.

Em quase todas as culturas, o jovem representa a esperança do seu povo, a promessa da sua perpetuação. Daí, a razão pela qual a educação constituir um assunto de alto interesse estatal, principalmente nos países totalitários. A educação, nesse sentido, é um processo de condicionamento dirigido, mediante o qual se objetiva introjetar, no jovem, os valores culturais, o respeito e obediência às instituições e tradições do seu povo.

A experiência societária do homem o tem alertado para o incalculável potencial que representa a juven­tude: os benefícios advindos de uma pedagogia racional e os perigos decorrentes de um represamento au­toritário de suas legítimas aspirações, ou, ainda, a contemporização indulgente de seus transbordamentos. O jovem é, por natureza, contestador e agressivo, e seu sentimento de rebeldia, uma conseqüência de sua pletora orgânica. Certas culturas, todavia, modificam, quase que totalmente, essa dispo­sição natural, mediante um processo de adaptação, tendente a anular a espontaneidade criadora da juven­tude. E o jovem é, psiquicamente, violentado, submetido que é, durante a fase infantil, a uma espécie de castração intelectual, tornando-se, em conseqüência, socialmente abúlico e transformando-se, não raras vezes, em um me­ro agente repetidor de sua cultura.

A história tem demonstrado a capacidade juvenil co­mo fator de transformações radicais, quando seu po­tencial é canalizado para certos fins específicos. A guerra, talvez, seja uma dessas finalidades mais comumente empregadas, conquanto acobertada por especiosas racionalizações.

O guerreiro é o símbolo do jovem, na manifestação plena do seu poder destrutivo e como fermento indispensável ao transformismo social mais radical. Alexandre, o Grande, conquistou o mundo conhecido da época, no apogeu da sua juventude. Esparta conseguiu a hegemonia militar sobre o mundo helênico gra­ças à rígida educação guerreira de sua juventude. E o Império Romano conheceu a humilhação da sua derrocada, quando a paralisia da ociosidade amoleceu os músculos e o espírito dos seus soldados.

O guerreiro, entre muitos povos primitivos, go­zava de privilégios e honrarias somente comparáveis aos da clas- se sacerdotal. Os que mais se destacavam no campo de ba-talha eram recebidos como semideuses, seus feitos tornavam-se lendários e as mulheres mais eugênicas lhes eram destinadas para perpetuação do seu vigor na genealogia tri-bal. O guerreiro era bem o símbolo do poder temporal, as-sim como o sacerdote representava a encarnação do poder espiritual na Terra.

A juventude, assim, não é apenas o apogeu biológico do indivíduo: pode constituir, em certas circunstâncias, o momento histórico de uma cultura. Todavia, o seu potencial criador é, geralmente, represado no seu nascedouro pelo processo compulsório dos condicionamentos sociais.

Com o desenvolvimento vertiginoso dos meios de comunicação e conseqüente redução das distâncias, as culturas mais herméticas têm sofrido o impacto do processo de permanente intercâmbio entre os povos. Consciente ou inconscientemente, os valores culturais sofrem um natural processo de revisão, que influi, notavelmente, na atitude dos indivíduos em relação à respeitabilidade, à imutabilidade e à veracidade, essencial ou apenas funcional, de certas instituições. Os dogmas e os tabus que, décadas atrás, constituíam as mais poderosas armas de controle social, começam a perder a sua eficácia e a se tornarem obsoletas. O etnocentrismo esgotou a sua antiga validade, enquanto o relativismo cultural vai-se firmando como uma das mais importantes leis sociológicas, face à derrocada melancólica dos chamados valores absolutos.

            A juventude de hoje vive, intensamente, este clima de relativismo de todas as coisas. O impacto da tecnologia, comprometendo estruturas não apenas sociais, mas psicológicas, quebrou certos grilhões, que limitavam e delimitavam o campo de ação das criaturas no tabuleiro da sociedade. Ruíram, e ainda estão ruindo, muitas formas de hierarquia, não apenas temporais, como também espirituais. Em conseqüência, certos valores existenciais duvidosos co­meçam a surgir em meio à caótica agitação social, na arritmia estafante das grandes cidades industriais. Deslumbrados, mas também desnorteados pe­las sensações da liberdade extemporânea, decorrentes do esvaziamento essencial de todos os valores, os jovens buscam, afanosamente, a sua própria expressão pessoal em pleno tumulto do seu potencial indisciplinado. Lutam pelo amor livre e pela proscrição do tabu da virgindade, sonham Suécias e tornam-se hippies, buscando, duvidosos eldorados na compulsiva ingestão de psicotrópicos. O colapso, talvez irreversível, de certas formas de autorida­de da cultura contribuiu, de maneira decisiva, para a confusão existencial, que parece contagiar quase todos os jovens da civilização ocidental.

O que é ser jovem? Um concei­to firmado na capacidade individual de resistência a certos valores e instituições culturais? É o homem considerado adulto quando absorve, plenamente, o conteúdo existencial de sua cultura, tornando-se, daí em diante, um legítimo representante da sociedade? Há indivíduos que, psicologicamente, nunca envelhecem, porque a sua juventude consiste em uma atitude subjetiva de independência em relação à sua cultura.